O que pode empalidecer o brilho da boa estrela de João Lourenço

João Lourenço precisa de um período de carência para o seu estado de graça alongado e tê-lo-á

FONTE:

Eleutério Fazenda

AUTOR:

João Lourenço3

O novo Presidente da República teve um bom acolhimento. Deu sinais, logo à partida, ainda ao longo da campanha eleitoral de que as coisas iriam mudar. E esses sinais intensificaram-se depois da sua investidura e nas iniciativas e medidas tomadas no primeiro de gestão do novo Executivo.

Para o cidadão comum a  base de avaliação do novo governo resumia-se a uma frase simples: “para pior já basta assim”. Portanto, tudo o que de bocadinho melhor viesse à rede já era peixe.

Convenhamos que Lourenço entrou com vontade de mudar. O que pressupunha afirmar-se como novo líder. O que aconteceu nas forças armadas, no partido e no sentimento de que não iria recuar que se instalou entre a população em geral. Que, sabendo que a situação não era boa, e face ao novo ar que se respirava com a nova governação, lhe deu, percebemos nas conversas de rua, um significativo  período de carência.

Foram, do ponto de vista do exemplo e da legislação dados passos muito positivos, que não escaparam à percepção internacional. O desmantelamento da anterior teia de interesses tecida em torno da Presidência de José  Eduardo dos Santos, mal vista na comunidade internacional, foi crucial para João Lourenço do ponto de vista da afirmação política, distanciando-se do núcleo de interesses que se instalara na economia e a controlava.

Há, sobre a fulgurante capacidade de João Lourenço ganhar a simpatia internacional, provocando um verdadeiro ‘turn around’ na percepção  dos mercados internacionais muitas teorias da conspiração. Todas elas são prováveis, como a da intervenção de Madeleine Albright , ex-secretária de Estado norte-americana e que acaba de publicar um livro deveras interessante sobre o fascismo e os novos populismos.

Mas o que na verdade importa é que os resultados, até agora, foram positivos. Entre o FMI e a China conseguiu-se dinheiro para equilibrar o Orçamento e manter vivos projectos indispensáveis a nível das infraestruturas. A parte de leão do apoio financeiro vem da China e é curiosa a argumentação utilizada por Alves da Rocha para defender a opção.

Há uma tentativa de recuperar a produção petrolífera, que cresce há três meses e melhorar o ambiente de negócios de modo a atrair capital externo. O preço do petróleo parece estabilizar, entre factores favoráveis e desfavoráveis à progressão do preço, acima de 80 dólares.

Só que, enquanto o autofinanciamento petrolífero não vier a ter uma expressão significativa, e dada a escassez da poupança nacional, o recurso a empréstimos que acentuam o serviço da dívida vai ser inevitável. Isto num contexto em que a inflação derrapa, embora a cotação do kwanza comece a, aparentemente, estabilizar, e o FMI prevê, apesar do aumento das exportações petrolíferas proporcionadas pelo projecto Kaombo da TOTAL, no Bloco 32 do offshore angolano, que a economia regrida novamente este ano, para finalmente começar a recuperar no próximo.

João Lourenço precisa, de facto, de  um período de carência alongado para o seu estado de graça. Se as condições sociais não se degradarem em demasia tê-lo-á.

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