O meu grito de revolta e inconformismo – Ramiro Aleixo

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ramiroaleixo

Sempre que me faço à estrada rumo a Benguela ou a Luanda, é sempre com profunda revolta e inconformismo, porque ao contrário de outros troços da estrada nacional nº 100, o que se assiste naquele pedaço entre a saída do Lobito e o desvio para o Biópio, é uma autêntica tortura, exemplo de falta de respeito ao cidadão e de sensibilidade na defesa dos nossos interesses, da parte da governação.

Mesmo sendo contra qualquer tipo de violência, por vezes sou invadido por uma grande vontade de procurar pelo empreiteiro chinês e dar-lhe um bom par de galhetas. Mas, depois lembro-me que a culpa não é dele mas nossa: continuamos a ter no Governo governantes corruptos, mentirosos, distanciados da solução dos nossos problemas; não estão preocupados com os males que nos causam.

Nesse troço, onde se deu o tiro de largada da intervenção, tudo está parado. Ao contrário, em toda a extensão da área que rasga o Cuanza Sul até Cabo Ledo, conheceu grandes progressos.

Será por falta de pagamento? – já me questionei!

Mas que relação tem a falta de pagamento com uma simples intervenção regular de terraplanagem ao longo de pouco mais de 14 quilómetros? – por mais que tente, não consigno encontrar explicação e pior, porque apesar de estar à vista de todos que esta empreitada dificilmente estará concluída em Dezembro, há quem na governação, que não passa por lá, que deveria fiscalizar mas não o faz, insiste em dizer a Nação que sim.

A execução de qualquer obra, causa sempre constrangimentos e o progresso faz-se com sacrifícios. Mas, nunca, seja qual for a exigência ou a complexidade, os constrangimentos devem resultar em insegurança dos cidadãos, na morte, ou na destruição de património público ou privado. E nesta minha já longa caminhada profissional, quer no estrangeiro quer no país, antes e no pós guerra, acompanhei a execução de inúmeras obras e nunca vi tamanha falta de respeito à segurança como nas empreitadas realizadas pelos chineses. Tenho exemplos muitos concretos: o Estádio Nacional de Ombaka num extremo e agora, pela segunda vez, num espaço de 10 anos, a reabilitação da estrada nacional nº 100. Noutro ainda, a execução de obras de grande complexidade e envergadura, como de três das maiores barragens de Angola. Que diferença abismal. Por outro lado, ninguém ainda me convenceu, que foi boa opção intervir em cerca de 450 quilómetros ao mesmo tempo, em vez de entre uma localidade e outra.

As chuvas estão já aí e vamos continuar a sofrer, a diminuir a nossa qualidade e esperança de vida, porque por mais conforto que a viatura tenha, não há coluna que suporte tanto mau trato. Os nossos meios, conseguidos à custa de tantos sacrifícios, continuarão a desgastar-se, a estragar-se e sempre a gastarmos milhões para mantê-los operacionais. E cada vez mais escasseiam e encarecem os acessórios. Várias famílias continuarão a perder os seus entes.

A economia de Benguela, continuará no sufoco, assistindo o aumento da taxa de empresas falidas, do desemprego, da criminalidade, a redução dos níveis de produção, enquanto os que sobrevivem são sufocados pelos impostos, no meio de incertezas sobre as medidas que serão impostas pelo FMI. No conforto dos seus lares, os responsáveis pela nossa desgraça, continuam a arrotar a degustação do bom bife, sentados por cima de milhões.

Diante desse quadro dantesco, pergunto-me se, mesmo não sendo da sua responsabilidade a execução da empreitada da estrada nacional nº 100, não seria de todo útil que o governador de Benguela, senhor Rui Falcão, em defesa dos interesses dos seus governados e da economia da província que governa, em vez de ir para Luanda de avião como tem feito sempre, desta vez, para o congresso do seu partido, fosse por estrada? Como nós, constataria a diferença da intervenção que ocorre no Cuanza Sul, com a que se observa na sua área de jurisdição, particularmente nesse troço de cerca de 14 quilómetros entre a saída do Lobito e o desvio para o Biópio. É um crime, é um exemplo de irresponsabilidade, de insensibilidade da parte dos órgãos do Governo angolano.
E como todos os responsáveis pela nossa desgraça estarão presentes no conclave do seu partido, convide-os se faz favor, para acompanharem-no no seu regresso à Benguela. Mas, desde já, alerto-o para o facto de que declinarão o seu convite, o que não me espantará porque, ao contrário do que pensávamos, mudou sim o Presidente da República, mudará o presidente do seu partido, mas o sistema, os métodos de trabalho, os chefes de cozinha, continuam os mesmos. Logo, a comida que nos servem, não pode ter nem melhor sabor, nem melhor apresentação.
Resumindo e concluindo: a nossa esperança continua adiada.

 

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